sexta-feira, 15 de junho de 2018

a ESPIRITUALIDADE da MORTE, no Cinema: O SÉTIMO SELO, de Ingmar Bergman

O cineasta Ingmar Bergman era filho de um sacerdote luterano, o que lhe fez refletir nos filmes a dramática pergunta da humanidade acerca de onde se encontra Deus enquanto sofremos aqui na Terra? Um tema espiritual que se tornou uma questão essencial de sua obra mais inspirativa, O SÉTIMO SELO, Suécia/1957. Segue uma ideia básica inicial do roteiro: "Um cavaleiro volta das Cruzadas e encontra sua terra natal devastada pela peste. Ele vai se confessar numa igreja rodeada de cadáveres. "Quero que Deus me mostre a face, fale comigo", diz ele, à figura encapuzada do outro lado da grade... A figura revela-se ser a Morte, que seguiu o cavaleiro em sua jornada desde a Terra Santa." (o Livro do Cinema, GloboLivros*) O título do filme e a personificação da Morte da humanidade como um homem soturno que acompanha o cavaleiro se baseiam no livro bíblico do Apocalipse, que nos capítulos 6 a 8 apresenta a abertura dos Sete Selos que acessam o conhecimento do destino dos homens através da revelação do Livro dos Planos de Deus para a história. A essência do enredo do diretor sueco é assim descrita pela crítica: "O sétimo selo se ocupa da alma e da condenação, do relacionamento masoquista do homem com seu Criador e dos uivos na escuridão que nos aguardam no fim do caminho."(*) O personagem "Morte" provoca no filme as reflexões das angústias da humanidade geradas pelas desgraças que nos rodeiam, ao mesmo tempo em que anuncia a realidade daquela que é a maior das misérias humanas: a nossa morte! Ainda que a vida nos proporcione experiências maravilhosas e que a consciência humana carregue consigo uma esperança interior de continuidade da existência, não são poucas as vezes em que assim como o cavaleiro do filme, sentimos que Deus está escondido, enquanto a Morte permanece ativa diante de nossos olhos. "A imagem do cavaleiro jogando xadrez com a Morte na praia se tornou uma das mais icônicas - e imitadas - na história do cinema. É uma vinheta rigidamente monocromática, a ausência de cor simboliza a ausência de Deus. O mundo no filme de Ingmar Bergman perdeu a vida e a vitalidade: a água que lambe a areia é cinzenta, o céu está coberto de nuvens escuras... ."(*) Uma interessante perspectiva do diretor para contrapor a tristeza gerada pela angústia das dores existenciais sem solução, surge através do casal Jof e Mia, que confronta os atos da "Morte", tanto através de sua arte como igualmente pelo nascimento de seu bebê, Mikael: eles decidem criar vida a fim de enfrentar a destruição causada pela morte! Eis um sublime propósito existencial para qualquer pessoa, que é exatamente o objetivo que o Livro do Apocalipse indica ser a razão de existirem os Sete Selos. Pois a abertura do Livro divino do destino através da retirada dos selos anuncia a realização da plena Justiça de Deus para a História da humanidade. Afinal, as dores e guerras reveladas no livro pela abertura dos selos são igualmente juízos divinos contra toda maldade humana que aflige os pequeninos e despreza as virtudes de Deus, recordando Noé e o dilúvio. E a abertura do Sétimo Selo, vejam só, juntamente com a sétima trombeta, história e taça encerra o ciclo dos juízos com o anúncio da restauração da vida eterna dos seres humanos, a qual foi inaugurada pela Ressurreição de Jesus de Nazaré - primeira vitória humana diante da morte na presente época deste mundo. Uma esperança de vitória contra as desgraças da vida que a esposa Mia indica ao marido Jof assim que afasta seu olhar da morte, ao direcionar seu coração para as benesses que a arte de viver lhes tem proporcionado. Por que não? Bom filme!

quarta-feira, 13 de junho de 2018

a ESPIRITUALIDADE do SENTIDO da VIDA, no Cinema: A FELICIDADE NÃO SE COMPRA

Ser ou não ser, eis a questão! O mais famoso filme do talentoso diretor Frank Capra foi lançado em 1946 e tornou-se um dos maiores da história do cinema somente algumas décadas depois - A Felicidade não se compra (It´s a wonderful life), com James Stewart e Donna Reed, EUA. E se você não conhece seu astro principal, Mr. James Stewart, e nem sua trajetória única como ator em Hollywood, bem, dá uma olhada no talento e carisma de Tom Hanks que você vai chegar perto de saber quem foi Jim Stewart, sim senhor. Segue uma sinopse geral do filme (o livro do Cinema, Globo Livros): "Capra faz o retrato de um homem leal que sacrificou os sonhos de viagens e carreira para seguir os passos do pai, ajudando a comunidade local e trabalhando num pequeno barco de Bedford Falls, no estado de Nova York." A partir daí, iniciamos nossa reflexão: De que adianta ao homem perder o mundo e também a própria alma? Pois o filme "é uma história sobre estar comprometido, sem saída, enquanto os outros vão embora e progridem e você se torna tão ressentido que agride verbalmente os filhos, os professores deles e sua esposa opressivamente perfeita." (Wendell Jamieson, The New York Times, 2008). Ora, se o sentido da vida é encontrar uma boa razão para ela, o que fazer quando se vive uma vida cheia de virtudes sem jamais conquistar as promessas que deveriam vir junto com suas realizações? Que tal pedir ajuda aos universitários? Uma necessária introdução espiritual acerca do sentido da vida está no livro bíblico de Eclesiastes, do Rei Salomão. E você já deve ter ouvido a sua afirmação mais famosa: "Tudo é vaidade", "Nada faz sentido" ou "Tudo é um vazio só", que são diversas versões da expressão que Salomão utiliza pra resumir sua observação da vida... assim que parou pra analisar tudo no objetivo de encontrar uma razão pra existência de todo mundo. O que não quer dizer que a vida não sirva pra nada e que não seja possível conhecer coisas maravilhosas quando a gente analisa o que acontece com a humanidade neste planeta. Não é isso. Salomão só afirma que ao olhar pra natureza e igualmente observar com cuidado a história de todos os seres humanos, bem, ele não conseguiu descobrir nenhum "sentido" bem definido pra existência da humanidade e para a criação do mundo. Ao mesmo tempo em que faz esta descoberta meio deprimente, Salomão também avisa que não devemos jogar a vida fora, não. Ao contrário, deve-se aproveitar todos os lugares e situações, pessoas e atividades que a vida oferece pra todo mundo. Pois há um tempo para abraçar e outro pra ficar longe, e há tempo de viver e até de morrer. Existe um tempo pra todo tipo de experiência de vida debaixo do céu, inclusive experiências junto de Deus. Agora, o negócio é que a partir daí o próprio sábio Salomão parece ficar em silêncio sobre uma questão espiritual que o filme apresenta como um grave drama existencial de quase todo mundo. Pois a história do filme é que o protagonista entra em total parafuso da alma e decide acabar com a vida após ter abandonado projetos pessoais só pra conseguir fazer algo de bom pela sociedade. E a questão é que mesmo assim, nada dá certo, nem pra ele e nem pra ninguém. Pois ele não consegue transformar como pretendia a história da sua família e nem mesmo da vizinhança - pessoas por quem ele faz tudo que pode, deixando pra lá seus planos acerca do que ser e fazer com a sua própria história. Ou seja, mesmo após abraçar alguns princípios espirituais que valorizam o altruísmo e a doação de si mesmo ao próximo como uma orientação pra dar um (digno) sentido pra vida, eis que tudo que ocorre ao redor do protagonista parece não mudar nada pra melhor. E até a sua vida interior parece não se elevar acima do teto da casa dele, no fim das contas. Que vazio, quanta inutilidade! Olha o enredo dramático do filme: "A rápida transição de George, de santo a bêbado suicida, é chocante e verossímil, talvez baseada na luta do próprio Capra contra a depressão logo depois dos 20 anos, quando, como imigrante italiano, teve dificuldade em achar trabalho. Anos de sacrifício e decepções estão por trás da ruína de George, e sua espiral descendente é um retrato convincente do desespero... o filme de Capra era mais sobre o realismo trágico que acerca de realismo mágico...". Tá entendendo? Então, já que estamos entrando num labirinto quase sem sentido, vale a pena ouvir o sábio Salomão de novo, pois Eclesiastes orienta que nem as conquistas profissionais e muito menos os bens vão trazer satisfação completa para nós, e muito menos, um sentido pra vida! Eis a razão pela qual Salomão diz que é necessário valorizar as experiências de vida que a gente tem, e não só aquilo que conquistamos - pois até as boas realizações irão passar, mas as experiências que nossa alma vai partilhar nesta existência, bem, estarão sempre conosco. Uma ideia que o humanista diretor Frank Capra acaba utilizando na solução de sua história - conforme resumo da crítica: "A vida de um homem afeta muitas outras vidas", diz Clarence (o anjo), e essa é, em última instância, a mensagem do filme." Mas é preciso seguir em frente, gente. Pois mesmo esclarecendo que as melhores conquistas desta vida são as próprias "experiências" que por aqui vivenciamos; então, Salomão também deixou claro que rapidamente iremos descobrir como a vida também é volúvel e frágil, e bastante cruel. Afinal, o protagonista George Bailey tornou-se o melhor amigo e líder que toda aquela comunidade poderia receber, mas... isto não significa que seus bons projetos e intenções tiveram sucesso, que desgraças não aconteceram ali, e que a desonestidade de poucos não enganou muitos a ponto de arruinar um bom número dos cidadãos daquela sociedade. A injustiça se mantém entre nós e seus frutos podres se acumulam na árvore da vida da gente, mesmo quando dedicamo-nos pra valer ao que todos sabemos ser o certo a fazer (ser) neste mundo. E qual será o sentido e razão desta vida, então? Certamente um sentido que requer a perspectiva espiritual pra se tornar bem razoável e real pra todo mundo. Pois somente através da espiritualidade sabemos que hoje se vive um tempo de transição entre a vida que deveríamos ter e aquela que somente iremos desfrutar numa outra dimensão, futura. Sim, eis algo que começa a trazer sentido para estes dias da nossa história. De igual maneira a espiritualidade judaico-cristã esclarece que o povo da fé saiu do Egito direto pra viver 40 anos no deserto antes de finalmente chegar à terra prometida. E eis que esta nossa presente existência também se tornou... um deserto, meu amigo. Mas que tem diversos lagos e oásis repletos de sombras de árvores pra quase todo lado que a gente olha, de verdade. Segue uma valiosa análise crítica que define um lado para o qual todos podemos olhar, pela visão do otimista diretor: "Para Capra, George é um homem que faz a diferença na vida dos outros; ele não é a pessoa qualquer que todos somos ou podemos ser. Nesse sentido, o filme pode ser um alerta de que não somos todos desapegados por igual; algumas pessoas, felizmente para as outras, são simplesmente menos egoístas que as outras." Ser ou não ser, por que não? Bom filme!

segunda-feira, 11 de junho de 2018

as INSTITUTAS do Cristianismo, de J CALVINO, um resumo do Resumo do J P Wiles (1)

A obra teológica “Institutas” do reformador protestante João Calvino é uma instrução básica, profunda e completa do conhecimento do Cristianismo. A partir das premissas de Santo Agostinho e Martinho Lutero, Calvino apresentou a Fé Cristã segundo o pensamento dos Apóstolos e dos Pais da Igreja, desenvolvendo o formato do Credo Apostólico, em edições sucessivas iniciadas em 1536 e finalizadas no ano de 1559. As “Institutas” de João Calvino contém 1000 páginas em 4 Livros e o resumo de J. P. Wiles quase 300, em sua tradução ao português. O texto a seguir é o primeiro volume de 30, num breve resumo extraído do... Resumo de J. P. Wiles, escrito no ano de 1920 ( Ensino sobre o Cristianismo – uma edição abreviada de AS INSTITUTAS DA RELIGIÃO CRISTÃ, Publicações Evangélicas Selecionadas, São Paulo/SP) As citações em destaque e asterisco são das Institutas de João Calvino. As citações em destaque são do Resumo de Joseph Pitts Wiles. Todos os textos bíblicos nominados no "Resumo" foram citados. Eis a seguir, o breve resumo... do Resumo de J. P. Wiles das Institutas de J. Calvino. LIVRO I - SOBRE O CONHECIMENTO DE DEUS, O CRIADOR - 1: HÁ ESTREITA VINCULAÇÃO ENTRE O CONHECIMENTO DE DEUS E O CONHECIMENTO DE NÓS MESMOS. Ninguém é capaz de ter uma boa compreensão de si mesmo ignorando a Pessoa de Deus, pois não somos autossuficientes na nossa origem e nem conseguimos existir no mundo por nossa própria capacidade. “A soma total da nossa sabedoria... abrange estas duas partes: o conhecimento que se pode ter de Deus, e o de nós mesmos.”(*) Cada vez que observamos a grandeza de Deus e as maravilhas de Sua criação, reconhecemos nossa pobreza e o buscamos intensamente cheios de temor para que nos abençoe ainda mais. Compreender a limitação da humanidade indica que a fonte de toda sabedoria está em Deus, e que é preciso desprezar todo conhecimento parcial para receber a verdade completa acerca de Deus. “Por outro lado, está certo que ninguém adquire qualquer conhecimento certo de si mesmo até ser trazido face a face com Deus.” O nosso orgulho naturalmente ensina que somos superiores, de tal forma que somente a perfeição do Senhor irá revelar a pequenez da nossa natureza humana. Nossa hipocrisia natural logo nos satisfaz com algo que é falso, e qualquer coisa que não é de todo ruim já consideramos boa e perfeita. “Até que olhemos mais alto do que a terra, pareceremos semideuses para nós mesmos." É necessário considerar as perfeições de Deus a fim de que nossa pretensa sabedoria seja percebida como uma tolice. “Surge daí aquele temor e espanto que tem caído sobre os que tem fé cada vez que tiveram consciência da presença de Deus. E frequentemente clamavam: “Morreremos, porque vimos o Senhor” (Jz 13.22, Is 6.5, Ez 1.28, 3.14, Dn 8.18, 10.16-17). As experiências de Jó, Abraão, Elias e Isaías confirmam que somente a majestade de Deus revela a nossa verdadeira ignorância. Pois qual deveria ser a reação dos homens quando os próprios Querubins de Deus cobrem o rosto cheios de temor diante d´Ele? O bom aprendizado orienta que devemos aprender primeiro acerca do conhecimento de Deus, para só depois realmente aprender algo a partir do conhecimento de nós mesmos. 2: O QUE SIGNIFICA CONHECER A DEUS. Para que seja possível saber verdadeiramente quem é Deus, é preciso obter um conhecimento d´Ele que seja para o nosso bem e que nos faça honra-lo de modo adequado. Um conhecimento básico e real como aquele que tinha Adão antes da queda que afastou a humanidade de Deus. Ainda que o conhecimento da Pessoa de Deus que temos em Jesus Cristo seja essencialmente maior, pois não apenas sabemos que fomos criados e somos sustentados pra viver, e ainda agraciados por Deus em tudo nesta criação. Mas, bem mais do que isto, percebemos como Deus governa a história dos homens com sabedoria e um cuidado amoroso inigualáveis, entendimento que nos faz reconhecer como dependemos d´Ele para tudo - o que só aumenta a nossa gratidão. Pois qual é a utilidade de saber que Deus existe, se como afirma Epicuro, Ele deixa a vida nos levar de qualquer jeito? Ora, o conhecimento correto de Deus é aquele que nos faz busca-lo para d´Ele receber cada uma de suas bênçãos excelentes. Será possível ter algum conhecimento verdadeiro de Deus, caso esqueçamos que fomos criados por Ele e de que hoje mesmo Ele está sustentando todo mundo? E de que toda vida deve ser guiada pelas mãos d´Ele, pois toda a nossa história lhe pertence? A religião sincera surge quando o homem se afasta de qualquer pecado em razão de ter percebido o amor de Deus, e não por causa do medo do castigo. Pois há muita gente religiosa no mundo, mas há pouca sinceridade de coração na alma dos homens. 3: O CONHECIMENTO DE DEUS É IMPLANTADO NO CORAÇÃO DO HOMEM DE MODO NATURAL. A consciência da existência de Deus existe em todos os seres humanos. O escritor Cícero disse que não há nação ou povo tão bárbaros a ponto de não saberem da existência de um Deus. A própria idolatria isto comprova, já que os homens preferem adorar pedaços de madeira e pedras a se declararem ateus. Eis a razão porque se diz que a religião não é uma invenção humana, ainda que homens espertos dela se utilizem para submeter as pessoas. Pois até estes enganadores tem a sua crença e junto deles também alguns dos piores homens, como Caio Calígula, que despreza Deus, mas treme diante do Altíssimo ao menor sinal da ira divina. Eis porque se sabe que a existência de Deus é uma verdade que nenhum homem consegue arrancar de seu coração. 4: ESTE CONHECIMENTO É ABAFADO OU CORROMPIDO, PARCIALMENTE PELA IGNORÂNCIA E PARCIALMENTE PELA MALDADE. Embora todos os homens tenham esta semente religiosa em si mesmos, nenhum deles sequer consegue faze-la amadurecer corretamente, de modo que não há piedade verdadeira no mundo. Mas esta tolice gravíssima não os livra, porém, de serem responsabilizados por sua rebeldia e de serem culpados por sua vaidade. Pois rapidamente analisam Deus a partir de si mesmos enquanto único padrão de avaliação. Eis como naturalmente se afastam do Deus verdadeiro a fim de se apaixonarem por um sonho do próprio coração, conforme afirma Paulo: “Dizendo-se sábios, tornaram-se tolos.” (Rm 1.22). As palavras de Davi: “Os tolos dizem em seu coração: “Não há Deus”., trata destes homens que sufocam em si mesmos a luz da revelação natural da grandeza de Deus. Davi afirma que eles negam Deus totalmente quando desacreditam em seu governo ao dizer que o Senhor está ausente da história. E explica que não há temor algum em seus corações pois até se orgulham de suas maldades. Mas ainda que desprezem a Deus, eis que o Senhor os chama para seu tribunal vez ou outra pela voz das suas consciências. Tal conhecimento esclarece que toda religiosidade comum dos homens, através da qual imaginam ser capazes de agradar a Deus, é uma defesa vazia conforme seu próprio ensino e fundamentos. Pois esquecem que a religião verdadeira precisa ser completamente definida pelo verdadeiro ensino de Deus. Eis porque Paulo disse aos Efésios que continuariam sem Deus, caso permanecessem sem um conhecimento correto do único Deus verdadeiro. A culpa dos seres humanos é gravíssima, então, pois somente buscam a Deus quando seu próprio medo a isto lhes obriga. E rápido praticam suas próprias regras e ritos num projeto religioso enganoso tentando agradar a Deus, esquecendo que estas atitudes os tornam ainda mais desobedientes diante das verdades divinas. Eis como no cotidiano de suas vidas tornam-se regularmente desobedientes, procurando sempre ficar de bem com Deus através de uma falsa religiosidade – maneira pela qual acabam apagando de seus corações as fagulhas do conhecimento de Deus que naturalmente carregam consigo. Desprezam Deus na riqueza e correm atrás dele nas dificuldades. E revelam através de falsas orações curtas que não desconhecem o Senhor, mas sim, escondem de si mesmos o conhecimento de Deus que existe em seus corações. 5: O CONHECIMENTO DE DEUS RESPLENDE NA ESTRUTURA DO UNIVERSO E NO GOVERNO CONTÍNUO DO MESMO. “Como a sua natureza essencial é incompreensível e está oculta à inteligência humana, ele gravou em cada uma de suas obras certos sinais da sua gloriosa majestade, pelos quais ele se dá a conhecer segundo a nossa diminuta capacidade.”(*) É impossível abrir os olhos para enxergar a natureza da criação e ainda ignorar a Pessoa de Deus, pois Ele se revela na estrutura do mundo, ainda que seu Ser essencial permaneça oculto. Eis a razão pela qual o Salmo 19 descreve a criacao em movimento a fim de apresentar o próprio Deus, algo que o Apóstolo Paulo explicou ser o modo como Deus revela seu grandioso poder através das coisas que foram criadas. (Romanos 1.19). “Estamos cercados por todos os lados pelas provas da maravilhosa sabedoria do Criador.” Existem obras de Deus que estão visíveis a todas as pessoas e há outras que somente os cientistas conseguem entender, como as órbitas e movimentos dos planetas e estrelas – que são segredos da sabedoria divina. A própria anatomia do corpo humano revela a destreza e exatidão do Criador da humanidade, o que motivou filósofos a definirem o “homem (como) um microcosmo, um pequeno mundo, porque ele é uma amostra tão maravilhosa do poder, da bondade e da sabedoria de Deus.” Enfim, Deus não está longe de cada um de nós (Atos 17.27), mas é preciso buscá-lo além do conhecimento que temos enquanto analisamos nosso próprio organismo. Eis a vergonhosa ingratidão dos seres humanos diante da Pessoa de Deus, pois cada vez que percebem algum traço de grandeza e sabedoria em si mesmos ou na criação, rapidamente exaltam a si próprios ou correm para valorizar outra "obra" da natureza. Eis a maneira como desprezam Deus e o conhecimento que Ele está revelando. “Que coisa! Todos os tesouros da sabedoria divina hão de conspirar para dirigir um “verme” de 1,60 de altura, e Deus não há de ter voz ativa no governo do Universo?” Homens enganadores ensinam que a própria alma humana tem uma existência controlada e restrita somente ao corpo do homem, desenvolvendo falsamente a afirmação de Aristóteles de que a alma teria seus próprios órgãos assim como o corpo. Negam a grandeza de Deus e exaltam a natureza em seu lugar. Ignoram tanto o conhecimento científico quanto as sensações do espírito humano que sempre superam a nossa natureza física elementar. “O que devemos dizer acerca de tais coisas, senão que as marcas da imortalidade são indelevelmente impressas sobre a natureza humana? Aquilo que alguns tagarelas falam acerca de uma inspiração secreta que vivifica o universo inteiro não é apenas fraco – é totalmente ímpio. Como pode a piedade ser produzida e nutrida nos corações dos homens por esta vã especulação acerca de um intelecto que anima e vivifica o universo?” O correto seria dizer que o próprio Deus estabeleceu e organizou a natureza a fim de jamais confundirmos o Criador com suas obras. “Ademais, quantas manifestações ilustres do poder de Deus nos compelem a pensar n´Ele! Ele sustenta pela Sua própria palavra este arcabouço ilimitado do céu e da terra...”. Deus faz brilhar os céus com trovões e tempestades enquanto movimenta as ondas fortemente até lhes disciplinar pelas mãos para que fiquem quietas. O Livro de Jó e as profecias de Isaías dão testemunhos diversos acerca do poder de Deus que observamos na natureza. Deus revela seu poder enquanto governa as atitudes dos homens e a história da humanidade através da sua Providência. Pois dia a dia Ele abençoa a todos, ao mesmo tempo que declara sua bondade para com os justos e juízo com os maus. Ao mesmo tempo sabemos que Deus castiga certos crimes hoje, enquanto outros somente serão penalizados no futuro. “Esta providência de Deus é ensinada no Salmo 107.” Deus ajuda os aflitos e protege os perdidos, cura enfermos e levanta os humildes para derrubar os orgulhosos. Tudo que os homens consideram obra do destino ou acaso são provas do cuidado providencial de Deus no mundo. E como o verdadeiro conhecimento de Deus é aquele que deve servir ao nosso bem, a orientação é investigar a vida e a criação para engrandecer a Deus, não para saber mais do mistério de Sua personalidade gloriosa essencial. É importante não esquecer que este conhecimento de Deus que estou apresentando é apenas uma prévia da vida futura completa que ainda existe. Todas as desgraças e injustiças que vemos dia a dia serão tratadas e julgadas por Deus no tempo oportuno, pois como diz Agostinho, se todo pecado fosse castigado hoje, não haveria juízo futuro e nem providência no tempo presente. Mas a ignorância dos homens permanece, pois facilmente acreditam no acaso da vida e esquecem que Deus governa a história cotidiana da humanidade pela sua providência. Por isso é que Paulo afirma que negar a verdadeira religião da revelação de Deus é rejeitar a fé – sempre! Pois somente o Evangelho irá oferecer o conhecimento verdadeiro e uma consequente adoração digna de Deus aos homens. Eis a razão pela qual sabemos que o maravilhoso brilho da criação sobre a humanidade não é capaz de nos orientar pelo caminho correto diante da Pessoa de Deus. Todos “precisamos de outro guia, de uma luz mais brilhante, para nos trazer ao verdadeiro conhecimento do nosso Criador. Desse guia passarei agora a falar.” (páginas 23 a 36 do Resumo de J.P. Wiles) (páginas 55 a 69 das Institutas, vol 1, 2006, Editora Cultura Cristã)

sexta-feira, 8 de junho de 2018

a Espiritualidade da (IN)SATISFAÇÃO da Vida, no Cinema: A FELICIDADE NÃO SE COMPRA

Ser ou não ser, eis a questão! O mais famoso filme do talentoso diretor Frank Capra foi lançado em 1946 e tornou-se um dos maiores da história do cinema somente algumas décadas depois - A Felicidade não se compra (It´s a wonderful life), com James Stewart e Donna Reed, EUA. E se você não conhece seu astro principal, Mr. James Stewart, e nem sua trajetória única como ator em Hollywood, bem, dá uma olhada no talento e carisma de Tom Hanks que você vai chegar perto de saber quem foi Jim Stewart, sim senhor. Segue uma sinopse geral do filme (o livro do Cinema, Globo Livros): "Capra faz o retrato de um homem leal que sacrificou os sonhos de viagens e carreira para seguir os passos do pai, ajudando a comunidade local e trabalhando num pequeno barco de Bedford Falls, no estado de Nova York." A partir daí, iniciamos nossa reflexão: De que adianta ao homem perder o mundo e também a própria alma? Pois o filme "é uma história sobre estar comprometido, sem saída, enquanto os outros vão embora e progridem e você se torna tão ressentido que agride verbalmente os filhos, os professores deles e sua esposa opressivamente perfeita." (Wendell Jamieson, The New York Times, 2008). Ora, se o sentido da vida é encontrar uma boa razão para ela, o que fazer quando se vive uma vida cheia de virtudes sem jamais conquistar as promessas que deveriam vir junto com suas realizações? Que tal pedir ajuda aos universitários? Uma necessária introdução espiritual acerca do sentido da vida está no livro bíblico de Eclesiastes, do Rei Salomão. E você já deve ter ouvido a sua afirmação mais famosa: "Tudo é vaidade", "Nada faz sentido" ou "Tudo é um vazio só", que são diversas versões da expressão que Salomão utiliza pra resumir sua observação da vida... assim que parou pra analisar tudo no objetivo de encontrar uma razão pra existência de todo mundo. O que não quer dizer que a vida não sirva pra nada e que não seja possível conhecer coisas maravilhosas quando a gente analisa o que acontece com a humanidade neste planeta. Não é isso. Salomão só afirma que ao olhar pra natureza e igualmente observar com cuidado a história de todos os seres humanos, bem, ele não conseguiu descobrir nenhum "sentido" bem definido pra existência da humanidade e para a criação do mundo. Ao mesmo tempo em que faz esta descoberta meio deprimente, Salomão também avisa que não devemos jogar a vida fora, não. Ao contrário, deve-se aproveitar todos os lugares e situações, pessoas e atividades que a vida oferece pra todo mundo. Pois há um tempo para abraçar e outro pra ficar longe, e há tempo de viver e até de morrer. Existe um tempo pra todo tipo de experiência de vida debaixo do céu, inclusive experiências junto de Deus. Agora, o negócio é que a partir daí o próprio sábio Salomão parece ficar em silêncio sobre uma questão espiritual que o filme apresenta como um grave drama existencial de quase todo mundo. Pois a história do filme é que o protagonista entra em total parafuso da alma e decide acabar com a vida após ter abandonado projetos pessoais só pra conseguir fazer algo de bom pela sociedade. E a questão é que mesmo assim, nada dá certo, nem pra ele e nem pra ninguém. Pois ele não consegue transformar como pretendia a história da sua família e nem mesmo da vizinhança - pessoas por quem ele faz tudo que pode, deixando pra lá seus planos acerca do que ser e fazer com a sua própria história. Ou seja, mesmo após abraçar alguns princípios espirituais que valorizam o altruísmo e a doação de si mesmo ao próximo como uma orientação pra dar um (digno) sentido pra vida, eis que tudo que ocorre ao redor do protagonista parece não mudar nada pra melhor. E até a sua vida interior parece não se elevar acima do teto da casa dele, no fim das contas. Que vazio, quanta inutilidade! Olha o enredo dramático do filme: "A rápida transição de George, de santo a bêbado suicida, é chocante e verossímil, talvez baseada na luta do próprio Capra contra a depressão logo depois dos 20 anos, quando, como imigrante italiano, teve dificuldade em achar trabalho. Anos de sacrifício e decepções estão por trás da ruína de George, e sua espiral descendente é um retrato convincente do desespero... o filme de Capra era mais sobre o realismo trágico que acerca de realismo mágico...". Tá entendendo? Então, já que estamos entrando num labirinto quase sem sentido, vale a pena ouvir o sábio Salomão de novo, pois Eclesiastes orienta que nem as conquistas profissionais e muito menos os bens vão trazer satisfação completa para nós, e muito menos, um sentido pra vida! Eis a razão pela qual Salomão diz que é necessário valorizar as experiências de vida que a gente tem, e não só aquilo que conquistamos - pois até as boas realizações irão passar, mas as experiências que nossa alma vai partilhar nesta existência, bem, estarão sempre conosco. Uma ideia que o humanista diretor Frank Capra acaba utilizando na solução de sua história - conforme resumo da crítica: "A vida de um homem afeta muitas outras vidas", diz Clarence (o anjo), e essa é, em última instância, a mensagem do filme." Mas é preciso seguir em frente, gente. Pois mesmo esclarecendo que as melhores conquistas desta vida são as próprias "experiências" que por aqui vivenciamos; então, Salomão também deixou claro que rapidamente iremos descobrir como a vida também é volúvel e frágil, e bastante cruel. Afinal, o protagonista George Bailey tornou-se o melhor amigo e líder que toda aquela comunidade poderia receber, mas... isto não significa que seus bons projetos e intenções tiveram sucesso, que desgraças não aconteceram ali, e que a desonestidade de poucos não enganou muitos a ponto de arruinar um bom número dos cidadãos daquela sociedade. A injustiça se mantém entre nós e seus frutos podres se acumulam na árvore da vida da gente, mesmo quando dedicamo-nos pra valer ao que todos sabemos ser o certo a fazer (ser) neste mundo. E qual será o sentido e razão desta vida, então? Certamente um sentido que requer a perspectiva espiritual pra se tornar bem razoável e real pra todo mundo. Pois somente através da espiritualidade sabemos que hoje se vive um tempo de transição entre a vida que deveríamos ter e aquela que somente iremos desfrutar numa outra dimensão, futura. Sim, eis algo que começa a trazer sentido para estes dias da nossa história. De igual maneira a espiritualidade judaico-cristã esclarece que o povo da fé saiu do Egito direto pra viver 40 anos no deserto antes de finalmente chegar à terra prometida. E eis que esta nossa presente existência também se tornou... um deserto, meu amigo. Mas que tem diversos lagos e oásis repletos de sombras de árvores pra quase todo lado que a gente olha, de verdade. Segue uma valiosa análise crítica que define um lado para o qual todos podemos olhar, pela visão do otimista diretor: "Para Capra, George é um homem que faz a diferença na vida dos outros; ele não é a pessoa qualquer que todos somos ou podemos ser. Nesse sentido, o filme pode ser um alerta de que não somos todos desapegados por igual; algumas pessoas, felizmente para as outras, são simplesmente menos egoístas que as outras." Ser ou não ser, por que não? Bom filme!

sábado, 2 de junho de 2018

a Espiritualidade dos PACIFICADORES, no Cinema: PONTE DOS ESPIÕES

"Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus" - eis como Jesus de Nazaré resumia uma de suas virtudes ao mesmo tempo que convocava seus seguidores a pratica-la, no Sermão da Montanha. E o maior cineasta mundial dos últimos 50 anos não poderia ficar de fora de um tema tão relevante como este, pois em 2015 lançou o excelente PONTE DOS ESPIÕES (Bridge of Spies, com Tom Hanks e Mark Rylance), um drama histórico de suspense que evoca o melhor dos filmes "adultos" do mestre do entretenimento. Dá uma olhada na crítica (site: omelete) de Marcelo Hessel: "Desde que se tornou um cineasta de filmes "de prestígio" com A Cor Púrpura em 1985, Steven Spielberg intercala seus blockbusters de apelo pop com dramas históricos de grandes temas e fundo humanista. Ele vem de dois filmes assim, Cavalo de Guerra e Lincoln, na tentativa de emular um retrato da guerra à moda John Ford, mas em Ponte dos Espiões (Bridge of Spies) Spielberg troca de matriz: é o seu filme mais parecido com os de Frank Capra, cineasta conhecido desde os anos 1930 por seus dramas e suas comédias do homem comum abraçado pelo mito do american way." E o mito humanista que o protagonista Tom Hanks abraçou direto na alma foi o de tornar-se um pacificador em plena guerra fria dos EUA com a URSS, assumindo uma função social que encontra respaldo no século 21 exatamente pela atuação dos profissionais da... Arbitragem - um método privado de solução de controvérsias no qual as partes submetem a solução de seus conflitos a um terceiro de confiança. Vamos analisar, então, a personalidade de Tom Hanks em algumas cenas do enredo, a fim de logo apreender no coração as virtudes essenciais de um espiritual pacificador, certo? Segue a sinopse (www.adorocinema.com): "Em plena Guerra Fria, o advogado especializado em seguros James Donovan (Tom Hanks) aceita uma tarefa muito diferente do seu trabalho habitual: defender Rudolf Abel (Mark Rylance), um espião soviético capturado pelos americanos. Mesmo sem ter experiência nesta área legal, Donovan torna-se uma peça central das negociações entre os Estados Unidos e a União Soviética ao ser enviado a Berlim para negociar a troca de Abel por um prisioneiro americano, capturado pelos inimigos." E logo que se encontra na Berlim Oriental, que constrói o muro separando-se do Ocidente no final da década de 50, o advogado Donovan já nos brinda com uma frase espiritual das boas, enquanto explica a seu interlocutor soviético a razão de sua presença naquele fim (centro) do mundo: "Precisamos ter o diálogo que nossos governos não podem ter." E assim se faz a história, amigo, pois até tornar-se o bem-aventurado intermediário entre os governos Kennedy (EUA) e Castro (Cuba) no verão de 1962, negociando a libertação de 9.703 vidas reclusas na ilha, eis que James Donovan caminhou continuamente pelo terreno das conversações judiciais e argumentações humanistas, até ser reconhecido por ambos os lados da guerra fria como um "árbitro" digno de confiança. Posição que conquistou ao manter sua distinta ética profissional como um defensor existencial que busca continuamente toda forma de diálogo sempre no objetivo de resguardar a dignidade dos seres humanos. O firme propósito de alcançar justiça plena para seu cliente sem desprezar a realidade do conflito é reconhecida como uma postura constante do Dr. Donovan, assim definida por seu cliente-espião soviético, Rudolf Abel: um "homem persistente", é como ele chama seu obstinado advogado. A caminhada jurisdicional que transforma o ético advogado do espião soviético num árbitro confiável das duas maiores nações do mundo se constrói via uma dedicação que não nega sacrifícios pessoais na busca por realizar uma comunicação honesta entre as partes. Uma intermediação valiosa que James Donovan realiza através de uma argumentação coerente e plena de sabedoria para logo esclarecer que todo valor humanitário agora respeitado, se tornará no futuro uma vitória recíproca para ambos os países. Ufa. Enfim, o negócio é que a função social da arbitragem carrega consigo valores existenciais que a espiritualidade judaico-cristã reconhece tomarem forma exatamente na pessoa histórica do Profeta Jesus, de Nazaré. Pois Jesus foi declarado Juiz da humanidade por Deus, para uma magistratura que o Apóstolo Paulo afirma ocorrer atraves de sua atuação como Advogado transcendente dos homens, e que João evangelista definiu acontecer por aqui enquanto o Cristo é a Luz do mundo. De tal forma que o instigante Advogado de "Ponte dos Espiões" torna-se uma parábola de comparação única pra refletir como Jesus Cristo se posiciona como Pacificador das relações mais fundamentais do Universo - dos homens entre si e de toda a humanidade diante de Deus. Veja que Deus Pai envia Jesus para um convívio corporal e espiritual com os homens a fim de que Ele dê bom testemunho existencial do Logos filosófico, através de um estilo de vida que ilumina a presente época - só para demonstrar como é que se vive de verdade, afinal. Eis como se unem na Pessoa do Messias as distintas figuras do reto Juiz e do Advogado defensor, que se torna um Árbitro da paz ao promover continuamente entre céus e terra uma bem-aventurada comunicação. Até alcançar de bom grado a solução de conflitos eternos que, às vezes, sequer recordamos que existem - a não ser pela dor de suas consequências, plenas das iras e vazios que tanto assediam a alma da gente. A cena final que toma lugar, então, na ponte dos espiões, revela a majestade fílmica da atmosfera spielberguiana plena de emoções íntimas em meio a um suspense geral contido, pois as relações pessoais e a dignidade das personalidades é que são relevantes, aqui. E o que levamos no coração é a firme declaração essencial do fiel defensor que, mesmo em meio à tensão das negociações quase arruinadas, jamais abandona os que dignamente representa: "não há acordo para Abel a menos que tenhamos Powers e Pryor." Bom filme!

quarta-feira, 30 de maio de 2018

a ESPIRITUALIDADE dos Advogados e PACIFICADORES, no Cinema: PONTE DOS ESPIÕES

Steven Spielberg e Tom Hanks estão juntos neste cativante drama jurídico humanista que evoca o princípio espiritual dos pacificadores (PONTE DOS ESPIÕES, EUA, 2015), e o que levamos no coração ao final são os ecos da declaração do fiel defensor que jamais abandona os que dignamente representa: "não há acordo para Abel a menos que tenhamos Powers e Pryor." - esclarece o Advogado James Donovan quando confrontado numa negociação prestes a se arruinar. Dá uma olhada na crítica (site: omelete) de Marcelo Hessel: "Desde que se tornou um cineasta de filmes "de prestígio" com A Cor Púrpura em 1985, Steven Spielberg intercala seus blockbusters de apelo pop com dramas históricos de grandes temas e fundo humanista. Ele vem de dois filmes assim, Cavalo de Guerra e Lincoln, na tentativa de emular um retrato da guerra à moda John Ford, mas em Ponte dos Espiões (Bridge of Spies) Spielberg troca de matriz: é o seu filme mais parecido com os de Frank Capra, cineasta conhecido desde os anos 1930 por seus dramas e suas comédias do homem comum abraçado pelo mito do american way." E o mito humanista que o protagonista Tom Hanks abraçou direto na alma foi o de tornar-se um pacificador em plena guerra fria dos EUA com a URSS, assumindo uma função social que encontra respaldo no século 21 exatamente pela atuação dos profissionais da... Arbitragem - um método privado de solução de controvérsias no qual as partes submetem a solução de seus conflitos a um terceiro de confiança. Vamos analisar, então, a personalidade de Tom Hanks em algumas cenas do enredo, a fim de logo apreender no coração as virtudes essenciais de um espiritual pacificador, certo? Segue a sinopse (www.adorocinema.com): "Em plena Guerra Fria, o advogado especializado em seguros James Donovan (Tom Hanks) aceita uma tarefa muito diferente do seu trabalho habitual: defender Rudolf Abel (Mark Rylance), um espião soviético capturado pelos americanos. Mesmo sem ter experiência nesta área legal, Donovan torna-se uma peça central das negociações entre os Estados Unidos e a União Soviética ao ser enviado a Berlim para negociar a troca de Abel por um prisioneiro americano, capturado pelos inimigos." E logo que se encontra na Berlim Oriental, que constrói o muro separando-se do Ocidente no final da década de 50, o advogado Donovan já nos brinda com uma frase espiritual das boas, enquanto explica a seu interlocutor soviético a razão de sua presença naquele fim (centro) do mundo: "Precisamos ter o diálogo que nossos governos não podem ter." E assim se faz a história, amigo, pois até tornar-se o bem-aventurado intermediário entre os governos Kennedy (EUA) e Castro (Cuba) no verão de 1962, negociando a libertação de 9.703 vidas reclusas na ilha, eis que James Donovan caminhou continuamente pelo terreno das conversações judiciais e argumentações humanistas, até ser reconhecido por ambos os lados da guerra fria como um "árbitro" digno de confiança. Posição que conquistou ao manter sua distinta ética profissional como um defensor existencial que busca continuamente toda forma de diálogo sempre no objetivo de resguardar a dignidade dos seres humanos. O firme propósito de alcançar justiça plena para seu cliente sem desprezar a realidade do conflito é reconhecida como uma postura constante do Dr. Donovan, assim definida por seu cliente-espião soviético, Rudolf Abel: um "homem persistente", é como ele chama seu obstinado advogado. A caminhada jurisdicional que transforma o ético advogado do espião soviético num árbitro confiável das duas maiores nações do mundo se constrói via uma dedicação que não nega sacrifícios pessoais na busca por realizar uma comunicação honesta entre as partes. Uma intermediação valiosa que James Donovan realiza através de uma argumentação coerente e plena de sabedoria para logo esclarecer que todo valor humanitário agora respeitado, se tornará no futuro uma vitória recíproca para ambos os países. Ufa. Enfim, o negócio é que a função social da arbitragem carrega consigo valores existenciais que a espiritualidade judaico-cristã reconhece tomarem forma exatamente na pessoa histórica do Profeta Jesus, de Nazaré. Pois Jesus foi declarado Juiz da humanidade por Deus, para uma magistratura que o Apóstolo Paulo afirma ocorrer atraves de sua atuação como Advogado transcendente dos homens, e que João evangelista definiu acontecer por aqui enquanto o Cristo é a Luz do mundo. De tal forma que o instigante Advogado de "Ponte dos Espiões" torna-se uma parábola de comparação única pra refletir como Jesus Cristo se posiciona como Pacificador das relações mais fundamentais do Universo - dos homens entre si e de toda a humanidade diante de Deus. Veja que Deus Pai envia Jesus para um convívio corporal e espiritual com os homens a fim de que Ele dê bom testemunho existencial do Logos filosófico, através de um estilo de vida que ilumina a presente época - só para demonstrar como é que se vive de verdade, afinal. Eis como se unem na Pessoa do Messias as distintas figuras do reto Juiz e do Advogado defensor, que se torna um Árbitro da paz ao promover continuamente entre céus e terra uma bem-aventurada comunicação, conforme o ensino essencial do Sermão do Monte: "Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus." A cena final que toma lugar, então, na ponte dos espiões, revela a majestade fílmica da atmosfera spielberguiana plena de emoções íntimas em meio a um suspense geral contido, pois as relações pessoais e a dignidade das personalidades é que são relevantes, aqui. Bom filme!

quinta-feira, 24 de maio de 2018

a Espiritualidade das AÇÕES SOCIAIS, no Cinema: O QUARTO SÁBIO

E que tal se houvesse um quarto Rei Mago seguindo a estrela de Belém para descobrir o local de nascimento do Messias dos judeus? Um quarto sábio da antiga Pérsia que saiu atrasado e não conseguiu encontrar os outros três, Melquior, Baltasar e Gaspar? A partir desta ideia, o filme "O Quarto Sábio" baseado no clássico de Henry Van Dyke oferece interessantes reflexões acerca da busca espiritual da humanidade ao criar o personagem Artaban, que estuda as Sagradas Escrituras em busca do real significado da vida, até descobrir as profecias sobre o anunciado Messias judaico. O negócio é que a história dos Reis Magos é conhecida mundialmente e origina da Bíblia, pois foi o evangelista Mateus que anotou a visita deles ao recém-nascido Cristo. E a expressão "sábio" que dá título ao filme bem expressa a personalidade destes homens, pois seriam astrônomos e filósofos que buscavam conhecimento adiante da ciência comum - desejo que os levou a seguir uma estrela do Oriente até Jerusalém, e depois até a cidade de Belém. É este o enredo inicial do provocante filme "O Quarto Sábio" (The Fourth Wise Man), com Martin Sheen e Alan Arkin, sob a direção de Michael Ray Rhodes - um interessante drama espiritual lançado em 1985. A sinopse do site (adoro.cinema) apresenta dados relevantes da história: "Artaban (Martin Sheen) é um jovem sábio que deseja seguir a Estrela de Belém para prestigiar o bebê que está sendo chamado de Rei dos Judeus. Contrariando amigos e família, ele tenta seguir os outros três Reis Magos que estão em caravana para conhecer o menino Jesus, mas acaba se perdendo. Em sua jornada para reencontrar o caminho rumo à Belém, Artaban acaba usando suas riquezas para ajudar os mais necessitados...". É isso! O "Quarto Sábio" Artaban saiu de casa com a sacola cheia de presentes para o Messias Judeu e acabou gastando suas oferendas em ações sociais no objetivo de transformar a vida de uma aldeia miserável - um drama religioso que ao relacionar busca espiritual e ação social ajuda-nos a pensar sobre a proximidade existencial que há entre fazer o bem e satisfazer o vazio de nossas almas. Afinal, não é de hoje que praticar grandes ou pequenas caridades tanto amadurece a personalidade, como também aquieta a alma da gente. Eis a razão pela qual "amar ao próximo" ou realizar ações sociais se integram desde sempre como uma virtude da espiritualidade de quase todo mundo. E tal realidade da humanidade encontra objetiva comparação na história deste Quarto Sábio, pois enquanto ele se perde na viagem até Belém em busca de partilhar a vinda ao mundo do prometido Messias - um anseio espiritual; Artaban irá exatamente passar bons anos da vida amadurecendo como ser humano enquanto partilha da história de pessoas necessitadas - um anseio existencial. E vice-versa. Ora, eis uma integração entre valores existenciais e da espiritualidade que as religiões e filosofias místicas relacionam desde a origem da humanidade - numa experiência unificada que orienta regularmente as vivências da alma dos homens. Pois sejam as planejadas ações sociais ou até os apaixonados atos de caridade, o fato é que ambos surgem na história tanto para preencher o vazio de nossa íntima personalidade - com mais amor, como igualmente para controlar o egoísmo que atua em nossa complexa humanidade. Mas tem mais, pois o aprendizado espiritual que relaciona espiritualidade e caridade só aumenta assim que aproveitamos a teologia que as unificou gravemente na história do Quarto Sábio. Afinal, se Artaban vai atrás do sentido da vida buscando encontrar o Messias das profecias numa peculiar jornada existencial na qual acaba por conhecer um amor superior, bem - temos aqui uma mensagem essencial do Cristianismo, certamente. Veja que o maior dos mandamentos para o Profeta Jesus é tanto "amar" a Deus como "amar" o próximo - um conceito complexo que o próprio Jesus tratou de praticar a vida inteira no objetivo de deixar bem claro seu significado a seus discípulos de fé. Pois segundo Jesus, em razão do egoísmo humano, somente se houver um primeiro encontro do nosso espírito com a própria Pessoa amorosa de Deus é que seremos capazes de amar o próximo de maneira saudável, tanto para nós quanto pra todo mundo. E a partir deste princípio eis que a espiritualidade cristã ensina que nossos atos de caridade devem prosperar até se tornarem atividades integrais de ação social - e até mais do que isto, pois são a base moral de um compromisso espiritual dos homens em assumir uma co-responsabilidade para manutenção da existência da própria sociedade dos homens. Tá entendendo... Ou seja, para a espiritualidade cristã não há distinção entre atos de caridade e a realização de amplas ações de cidadania que existem exatamente para construir uma sociedade humana mais justa e aprazível pra todo mundo. Eis o princípio que a teologia define como um "mandato cultural" que convoca fiéis religiosos a assumirem sua cidadania social integral, seja na educação e artes, na profissão e política, na família e parentela, até que tudo e todos sejam plenamente "abençoados" por nossos dons e talentos da convivência social. Trata-se de uma perspectiva espiritual interessante pra refletir, pois este mandato cultural que convoca religiosos a desenvolverem uma cidadania bendita junto da sociedade dos homens é - primeiramente, um compromisso da "fé" dos cristãos. No entanto, é comum perceber religiosos cristãos e até outros, assumirem seu compromisso cultural em detrimento de sua própria fé - pois se tornam profissionais competentes e bons cidadãos, ao mesmo tempo em que fragilizam sua devoção espiritual. Pois ao retamente abraçarem suas cidadanias sociais, também regularmente menosprezam sua experiência religiosa junto da pessoa de Deus - que foi exatamente aquele que originalmente os chamou para serem pessoas mais dedicadas à sociedade, do que a si próprios. Cuide-se, então, e aproveite pra logo amadurecer todo sentimento caridoso que há em ti, sabendo que a básica compaixão que o chama para entregar apenas um pedaço de pão ao homem faminto da esquina é o início, sim, de uma bela história de si mesmo. Pois a espiritualidade das ações sociais é muito mais relevante e profunda do que somente praticar boas obras em obediência a um princípio religioso ou filosófico. A compaixao pra caridade é uma sensibilidade básica da alma que anseia por um relacionamento espiritual transformador que nos capacite a abençoar de verdade, toda a humanidade! Bom filme.