terça-feira, 20 de junho de 2017

a ESPIRITUALIDADE no Cinema: Ensaio sobre a Cegueira, de Fernando Meirelles

A cegueira básica da humanidade acerca da espiritualidade é a própria negação da existência do espírito no homem. O cidadão nega sua espiritualidade tanto ao afirmar que não acredita na alma humana, ou então, quando decide deixar pra lá qualquer análise pessoal sobre o que ocorre em seu interior enquanto vai vivendo a vida. Um resultado possível da negação é a preferência por fazer desta vida uma grande experimentação de tudo que existe e acontece, como se não houvesse amanhã. Ou então, a escolha por viver só naturalmente sem parar pra pensar que tudo que existe influencia bastante nosso ser interior, o próprio espírito que pulsa no homem. O ótimo e pesadíssimo filme do melhor cineasta brasileiro deste século, Fernando Meirelles - brilhante ao sempre unir a sutileza e profundidade técnica européia com a eficaz dinâmica hollywoodiana, apresenta através de cores fortes até onde pode chegar o ser humano quando decide viver somente para o aqui e o agora. BLINDNESS, "Ensaio sobre a cegueira", 2008, com Julianne Moore, Mark Ruffalo e Alice Braga, é cinema da melhor qualidade, em filme assim descrito por Marcos Guterman, no Estadão, seção cultura: "A cegueira pode funcionar como uma forma de enxergar a natureza humana muito além das aparências civilizadas... Bastante fiel ao livro homônimo de José Saramago, Ensaio se passa em nenhum lugar, com pessoas sem nome. Não se trata, portanto, de uma história, mas de uma reflexão a respeito do que realmente somos, em essência, e não do que pensamos que somos - e isso inclui um nome e um endereço, espécie de rótulos com os quais nos reconhecemos e somos reconhecidos. No mundo da cegueira coletiva, esses rótulos são irrelevantes. No entanto, não são apenas as referências mínimas que estão ausentes. O desmoronamento moral, de um dia para o outro e em ritmo irresistível, traduz a confusão dos conceitos em um tempo no qual todas as informações têm o mesmo peso. A cegueira de Ensaio é branca - é o brilho da luz que cega, é o excesso de informações desordenadas que confunde, em vez de esclarecer, e não deixa ver como o mundo, de fato, é. O resultado disso é o caos." A ilusão do progresso moral da humanidade que o modernismo visualizou cai por terra quando diante das necessidades mais primárias, e protegido pela obscuridade, o homem escolhe o arrojo do completo egoísmo como princípio de vida a fim de satisfazer as paixões mais primitivas da raça. A escuridão torna-se, de repente, a orientação básica de vida para os que se percebem cegos num instante, o que lhes dá o direito de praticar, enfim, tudo que desejam e sonham ser sua necessidade. E quando já não enxergam mais quem são, pois dominados pela paixão; acreditam que mais ninguém poderá vê-los assim, também, vivendo em plena devassidão. A palavra do profeta que afirma estar o coração do homem em grandes trevas, assim que seus olhos enxergam tão somente a escuridão; poucas vezes foi tão eficaz pra descrever como a humanidade distante da verdade (realidade), entrega-se rapidamente ao que se torna, então, sua única existência; a ruína do sentimento. A liberação total para a prática das paixões humanas que a escuridão de si mesmo oferece, é sempre um convite em conflito com a boa prática da espiritualidade. É muitas vezes por aí que os olhos humanos se fazem grandes vilões de atitudes de respeito e pura sensibilidade, pois quando o terror das necessidades se avizinha junto de nós, é cada um por si, mesmo - e salve-se quem puder. Eis como a crueza das lutas da vida pode, grandemente, apagar qualquer traço de uma personalidade bendita que nossa consciência (espírito) almeja trazer pra realidade física, de todo mundo. É preciso vigiar, e orar, já dizia o profeta. Pois quando o espírito está pronto, a carne se revela fraca, quase sempre. Pois o espírito do homem anseia, de verdade, alguma experiência existencial de maior profundidade. Uma busca por certa amplitude de valores e mais dignas sensações pra vida. Foi o Apóstolo São João quem melhor escreveu sobre situações da vida e ensinos de sabedoria do Profeta Jesus, acerca da escuridão da espiritualidade da humanidade. João relata que um cego de nascença fora curado por Jesus - em uma demonstração milagrosa que somente um "homem de Deus" poderia realizar. Mas os "donos" de Deus não aceitavam que um Mestre distinto deles mesmos, viesse lhes revelar ensinos do próprio Deus que diziam tanto conhecer. Não importava que milagres infinitos se realizassem diante de seus próprios olhos. O orgulho humano que nos torna amantes de nós mesmos, os impedia de serem humildes pra receber um novo ensino a fim de que sua caminhada pra conhecer Deus na terra, pudesse, ainda e sempre, amadurecer. Jamais seria assim com eles. Pois, afinal, já nasceram sabendo tudo, mesmo. Foi quando Jesus ensinou aos homens que aquele que antes fora um cego de nascença - agora enxergava, sim, os reais caminhos da espiritualidade. Não só porque bem visualizava o mundo, mas porque acreditava no Profeta. Quanto aos outros, ainda enxergavam o mundo, mas não mais a vida - e cada vez menos, o espírito. Pois face a face com o Profeta, nada viam além de si mesmos. Bem-aventurados os humildes, pois deles é o Reino dos céus - já que podem ser conduzidos pelos caminhos do espírito, de Deus! E bem-aventurados são também, os que não viram, mas creram. Porque mesmo sem ter olhos físicos na ocasião, tem olhos espirituais pra reconhecer hoje, a voz daquele que, sim, conhece muito bem a espiritualidade de quase todo mundo. Bom filme!

sexta-feira, 16 de junho de 2017

a ESPIRITUALIDADE no Cinema: Um Senhor ESTAGIÁRIO

O bonito filme "Um Senhor Estagiário" (2015) se assemelha no conteúdo ao excelente "A Loja da Esquina" (de Ernst Lubitsch, com James Stewart, 1940) e ao muito bom "Mensagem pra Você" (de Nora Ephron, com Tom Hanks e Meg Ryan, 1998). Eis a primeira boa razão pra assisti-lo. Nancy Meyers o dirigiu unindo boa sensibilidade relacional junto de uma eficaz técnica de comédia, apoiada com um pouco de feminismo contemporâneo, que também atualiza socialmente seu enredo. Robert De Niro retorna às suas boas apresentações e Anne Hathaway segura junto a qualidade do script tocante que o roteiro procura desenvolver até construir o realista final emocional da história. Daniela Pacheco, em cinemadebuteco, o descreveu assim: "A narrativa leve de Meyers é outro ponto positivo. Diálogos bem construídos, especialmente aqueles entre Jules e Ben – algo essencial aqui -, um desenvolvimento natural do roteiro e transformações nos personagens que são plausíveis na maior parte do tempo. O aprofundamento dos dois protagonistas é bastante satisfatório, pois conseguimos compreender quem são, seu background e porque agem da maneira que agem. E, obviamente, Hathaway e De Niro. O filme funciona primordialmente por causa de suas atuações e química contagiante... Não, Um Senhor Estagiário não é um conto de fadas. Trata-se de um filme leve, sim, e os personagens podem ser bonzinhos demais, mas não é nada mais do que um universo recheado de indivíduos como aqueles que nos cercam diariamente. É uma produção realística e cotidiana, que reflete nossa sociedade e discute temas como machismo, família, amor, envelhecimento e amizade. Meyers faz aqui o que sempre fez de melhor e que está presente em outras obras de sua carreira." Enfim, trata-se de um bom filme, gente. Assistam, mesmo! Enquanto isso, aqui vão algumas reflexões espirituais que o filme permite pensar pra nos lembrar que a humanidade tem sim, corpo, alma e espírito vivendo (todos) juntos dentro deste sarado ser físico de quase todo mundo. Algo que, se for deixado de lado por muito tempo, vai causar estragos tanto na alma, quanto no coração de todos. "Um Senhor Estagiário" inicia (e termina) com uma interessante cena de práticas espirituais que cuidam do interior da gente enquanto "movimentamos" o corpo pra aquietar a mente, e a alma. Bacana. Mas é no desenrolar da história que algumas (boas) orientações da Espiritualidade judaico-cristã surgem de maneira instigante pra nos ajudar a cuidar da própria vida, levando em conta alguns eternos princípios espirituais. Pra começar, e até terminar de dar uma boa olhada nos valores que o filme nos traz, vale a pena reconhecer que o desprezo aos princípios éticos sociais que a nossa presente época da pós-verdade apregoa, são amplamente negados pelas vivências relacionais dos protagonistas. Não é nada, não é nada, já é um monte de coisa boa, pra quase todo mundo. Um casamento, do passado ou do futuro, ainda tem valor e merece receber aquele cuidado a mais; que não somente a decisão de tudo terminar assim que chega pra valer nossa primeira (grande) encrenca. Um pouco de coleguismo fraternal e até um olhar para a corporação inteira ajudam na tomada de decisões profissionais; ao invés desta se tornar somente uma experiência individual que pouco enxerga além do próprio pé, no traseiro dos outros. Certa sobriedade emocional e um pouco de experiência de vida são - até que enfim, apresentadas de forma mais realista, de verdade, pois (bem) descrevem que na multidão de um bom conselheiro vivencial existe bastante sabedoria. Que deixemos vir a nós os nossos idosos, please. A humildade individual que provê experiências reais de aprendizado pessoal, e a humildade comunitária que me tornam capaz de partilhar de um grupo, ali abraçando o lugar que me cabe; tornam-se, finalmente, bons valores de uma ética de convivência social que constrói personalidades no tempo, ao invés de figuras emblemáticas temporárias, egoístas e orgulhosas demais. Enfim, a humanidade pode ser (e certamente será) bem melhor do que estamos acostumados a ver (e sentir) tanto no cinema, quanto no bairro. E também nas nossas novelas (quanta porcaria!). Tudo isso nos remete a um bom número de provérbios bíblicos de sabedoria e nos recorda alguns mandamentos divinos de respeito e fraternidade, que são, sim, princípios relacionais espirituais pra quem quiser deles receber satisfação, oriundos de uma vida mais bem realizada, gente. Tanto nestes dias, quanto no porvir. Pois até a eternidade se constrói desde agora, com um (pouco) mais de temor, a Deus! Que filme agradável, e bom de assistir. Obrigado, Nancy.