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a Espiritualidade LUZ e TREVAS, no Cinema: Ensaio sobre a cegueira, de Fernando Meirelles

A cegueira básica da humanidade acerca da espiritualidade é a própria negação da existência do espírito no homem. O cidadão nega sua espiritualidade tanto ao afirmar que não acredita na alma humana, ou então, quando decide deixar pra lá qualquer análise pessoal sobre o que ocorre em seu interior enquanto vai vivendo a vida. Um resultado possível da negação é a preferência por fazer desta vida uma grande experimentação de tudo que existe e acontece, como se não houvesse amanhã. Ou então, a escolha por viver só naturalmente sem parar pra pensar que tudo que existe influencia bastante nosso ser interior, o próprio espírito que pulsa no homem. O ótimo e pesadíssimo filme do melhor cineasta brasileiro deste século, Fernando Meirelles - brilhante ao sempre unir a sutileza e profundidade técnica européia com a eficaz dinâmica hollywoodiana, apresenta através de cores fortes até onde pode chegar o ser humano quando decide viver somente para o aqui e o agora. BLINDNESS, "Ensaio sobre a cegueira", 2008, com Julianne Moore, Mark Ruffalo e Alice Braga, é cinema da melhor qualidade, em filme assim descrito por Marcos Guterman, no Estadão, seção cultura: "A cegueira pode funcionar como uma forma de enxergar a natureza humana muito além das aparências civilizadas... Bastante fiel ao livro homônimo de José Saramago, Ensaio se passa em nenhum lugar, com pessoas sem nome. Não se trata, portanto, de uma história, mas de uma reflexão a respeito do que realmente somos, em essência, e não do que pensamos que somos - e isso inclui um nome e um endereço, espécie de rótulos com os quais nos reconhecemos e somos reconhecidos. No mundo da cegueira coletiva, esses rótulos são irrelevantes. No entanto, não são apenas as referências mínimas que estão ausentes. O desmoronamento moral, de um dia para o outro e em ritmo irresistível, traduz a confusão dos conceitos em um tempo no qual todas as informações têm o mesmo peso. A cegueira de Ensaio é branca - é o brilho da luz que cega, é o excesso de informações desordenadas que confunde, em vez de esclarecer, e não deixa ver como o mundo, de fato, é. O resultado disso é o caos." A ilusão do progresso moral da humanidade que o modernismo visualizou cai por terra quando diante das necessidades mais primárias, e protegido pela obscuridade, o homem escolhe o arrojo do completo egoísmo como princípio de vida a fim de satisfazer as paixões mais primitivas da raça. A escuridão torna-se, de repente, a orientação básica de vida para os que se percebem cegos num instante, o que lhes dá o direito de praticar, enfim, tudo que desejam e sonham ser sua necessidade. E quando já não enxergam mais quem são, pois dominados pela paixão; acreditam que mais ninguém poderá vê-los assim, também, vivendo em plena devassidão. A palavra do profeta que afirma estar o coração do homem em grandes trevas, assim que seus olhos enxergam tão somente a escuridão; poucas vezes foi tão eficaz pra descrever como a humanidade distante da verdade (realidade), entrega-se rapidamente ao que se torna, então, sua única existência; a ruína do sentimento. A liberação total para a prática das paixões humanas que a escuridão de si mesmo oferece, é sempre um convite em conflito com a boa prática da espiritualidade. É muitas vezes por aí que os olhos humanos se fazem grandes vilões de atitudes de respeito e pura sensibilidade, pois quando o terror das necessidades se avizinha junto de nós, é cada um por si, mesmo - e salve-se quem puder. Eis como a crueza das lutas da vida pode, grandemente, apagar qualquer traço de uma personalidade bendita que nossa consciência (espírito) almeja trazer pra realidade física, de todo mundo. É preciso vigiar, e orar, já dizia o profeta. Pois quando o espírito está pronto, a carne se revela fraca, quase sempre. Pois o espírito do homem anseia, de verdade, alguma experiência existencial de maior profundidade. Uma busca por certa amplitude de valores e mais dignas sensações pra vida. Foi o Apóstolo São João quem melhor escreveu sobre situações da vida e ensinos de sabedoria do Profeta Jesus, acerca da escuridão da espiritualidade da humanidade. João relata que um cego de nascença fora curado por Jesus - em uma demonstração milagrosa que somente um "homem de Deus" poderia realizar. Mas os "donos" de Deus não aceitavam que um Mestre distinto deles mesmos, viesse lhes revelar ensinos do próprio Deus que diziam tanto conhecer. Não importava que milagres infinitos se realizassem diante de seus próprios olhos. O orgulho humano que nos torna amantes de nós mesmos, os impedia de serem humildes pra receber um novo ensino a fim de que sua caminhada pra conhecer Deus na terra, pudesse, ainda e sempre, amadurecer. Jamais seria assim com eles. Pois, afinal, já nasceram sabendo tudo, mesmo. Foi quando Jesus ensinou aos homens que aquele que antes fora um cego de nascença - agora enxergava, sim, os reais caminhos da espiritualidade. Não só porque bem visualizava o mundo, mas porque acreditava no Profeta. Quanto aos outros, ainda enxergavam o mundo, mas não mais a vida - e cada vez menos, o espírito. Pois face a face com o Profeta, nada viam além de si mesmos. Bem-aventurados os humildes, pois deles é o Reino dos céus - já que podem ser conduzidos pelos caminhos do espírito, de Deus! E bem-aventurados são também, os que não viram, mas creram. Porque mesmo sem ter olhos físicos na ocasião, tem olhos espirituais pra reconhecer hoje, a voz daquele que, sim, conhece muito bem a espiritualidade de quase todo mundo. Bom filme!

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