terça-feira, 14 de abril de 2015

A Espiritualidade de Quase Todo Mundo no DesertoI

Imagens de desertos e regiões áridas nos aproximam culturalmente de ideias acerca da espiritualidade. E como somos pessoas sempre interligadas aos costumes do nosso mundo, os desertos falam de nós, sim, e da nossa espiritualidade, certamente. Mas isso não não significa que tais perspectivas são essenciais à nossa espiritualidade, nem que revelam corretamente a peculiar realidade interior, humana. Pois qualquer aproximação da cultura para as sensações do espírito ocorre sempre através de uma relação que fazemos, no caso, a partir das situações mais comuns que nos fazem pessoas angustiadas e ansiosas cotidianamente. Eis a maneira como a midiática solidão do deserto se torna um espelho de nossa caminhada de interioridade urbana, pois nossa sensação interior de vazio bem parece se explicar nas imagens de uma individualidade quase infinita que as regiões inóspitas representam. Se a imagem é eficaz aos olhos, parece que também será interessante ao nosso interior - e daí, a força de crermos que "desertos" são oportunidades de experiências espirituais edificantes. Porém, importa lembrar que viver espiritualmente é muito mais do que solidão e sensações só individuais, pois tanto o perdão que aquieta como a empatia que aproxima são vivências espirituais humanas das melhores que se conhece. Portanto, nossa vida espiritual também amadurece nas boas realizações e acontece bastante em meio aos detalhes afetivos mais simples do dia a dia, como um sorriso sincero e no repartir do pão no café da manhã, ou da tarde. A Espiritualidade humana, então, deve ser buscada mais na reflexão do que na solidão, e mais na quietude da interioridade do que na (o)pressão da individualidade. É preciso construir uma caminhada espiritual que seja mais próxima da nossa personalidade e existência diária do que de nossa cultura, ainda que esta origine daquela, também. Enfim, fique atento, e não se deixe dominar por ideias e pensamentos apenas culturais (globais), que se tornam, muitas vezes, bastante sofríveis pra você mesmo. Pois muitos deles originam de uma expectativa cultural que surge, sim, da realidade, mas trata-se de uma realidade que não é, e nem precisa ser necessariamente a sua.